O trabalho.

06/04/2010

Existem pessoas que vivem – e vivem bem e outras que vivem em função de viver.

Tem umas pessoas que foram jogadas no mundo e deram um empurrão nas costas delas e disseram “vai pexte! É a sua vez” e elas foram, mas fecharam os olhos durante a descida e não viram nada, daí que agora elas estão meio perdidas sem saber o que fazer , então vivem em função da obrigação de viver; do tipo: preparar o almoço tal hora, ver a novela tal outra hora e se preparar para dormir uma outra hora. Se você se prepara para dormir ao invés de simplesmente dormir as coisas vão mal.

Eu não sei em qual destes grupos eu me encaixo, mas, fico feliz de tentar pensar nisso.

As vezes as pessoas vão sonhar por você e elas vão te dizer coisas fantásticas que você deve fazer, como por exemplo ter filhos. Eu já quis ter filhos para esfregar na cara dos outros, hoje em dia prefiro que me castrem a ter uma criança chorando na minha casa.

E algumas pessoas vão simplesmente te dizer que você deveria estudar isso, ou aquilo, ou ir para não sei aonde fazer um mestrado quando tudo que você queria era, na verdade, comer um pote inteiro de sorvete de flocos sozinho; coisa que você não vai fazer porque as pessoas simplesmente não esperam que você engorde. E quando você engora elas acham que é o fim, e elas fazem toda a força do mundo para que seja o fim.

Só quero deixar bem claro, antes de mais nada, que pessoas que comentam que você “deu uma engordadinha” deveriam ser enrabadas em praça pública, sob o sol quente do meio dia por um carneiro. [Vocês já viram o tamanho das bolas de um carneiro? Eu queria que bolas de sorvete fossem do tamanho de bolas de carneiro, mas elas não são].

Então eu estou aqui, de cuecas, pensando na vida. Tudo o que sei é que as pessoas inventaram as calças para cobrir a cueca, mas se elas pensassem nelas mesmas andariam de cuecas e não estariam nem ai para o mundo.

Ou seja: Pessoa s que vivem são aquelas que gostariam de andar de cueca em todo lugar e pessoas que vivem em função são aquelas que compram qualquer calça, pois, não poderiam  andar de cueca em qualquer lugar.

Para Gustavo, com amor.

02/03/2010

Querido Gustavo

Eu acho que te disse algumas coisas bastante perturbadoras uns dias atrás e venho, por meio desta, me explicar um pouco. Sabe… É que eu tenho achado tudo bastante complicado amigo. São muitas pressões e expectativas em cima de mim e Deus sabe que eu não lido muito bem com isso.

As pessoas querem demais.  Elas exigem demais. Se partirmos deste ponto, poderiamos imaginar que elas preenchem os requisitos seguindo o que elas exigem. Não.

As pessoas simplesmente esperam que você seja bonito, alto, forte,  educado, simpático, elegante, estiloso, bem vestido, empregado, saudável, fiel, leal, mentalmente estável, que você tenha bom gosto – seja lá o que isso significa –  elas querem também que você não tenha barriga e que você tenha um pau grande e grosso. Por não corresponder a grande maioria destes requisitos decidi surtar.

E foi por isso que eu abandonei as pessoas e hoje, só me importo com as minhas pernas e tenho apenas um único amor: O alcóol.

Sabe querido, eu já tentei muitas coisas, mas a dicotomia existente entre ser inteligente [culto] contra ser popular dificulta as coisas. Eu já fui tudo:  Comecei como um pirralho gordinho, que aos 12 anos já citava os grandes filósofos gregos para ninguém. Depois, fui um amável metaleiro amargurado, que tinha um grande coração, muito amor pra dar, escrevia pra caralho e tinha um cabelo comprido idealista e lindo.  Porém,  as circunstâncias me fizeram o que sou hoje. Um bicha beberrão e mau humorado.  Poderia ser pior. Ao menos, eu sou irônico.

Eu bebo demais e fumo. Reclamo de quase tudo e não tenho culpa que algumas pessoas tenham resolvido achar isso bonitinho. Que seja!  Tudo o que eu quero são pernas mais grossas. Sò isso amigo.

E é por isso que eu bebo.  O alcóol não vê esse meu exterior esquisito e mal acabado. As latinhas não me julgam; elas apenas dizem: “Estou gelada, beba-me” e eu as obedeço.  Estou velho e só tenho 22! Tenho muito medo do que eu venha a me tornar quando eu estiver de fato velho.

Eu tinha sonhos.  Eu sonhava em acordar ao lado de um homem peludinho, me aninhar em seu peito e dizer “acorde amor, está na hora” e ele diria “só mais cinco minutos” e eu então o beijaria até ele despertar, e me agarrar e rolariamos na cama e riríamos e depois iriamos para a cozinha tomar café da manhã.

Adivinha! O sonho acabou! Misturei com vodka e virei numa festa ruim!

Meu último amor usou meu coração como peso de porta! Depois de algumas batidas, alguns chutes e muito cansaço ele está de volta, batendo desritimado como um sambista aleijado dentro do meu peito. E eu bebo para mantê-lo vivo. Bebo para ter alguma emoção e não ter que admitir que a vida, talvez, tenha acabado.

Sorvo o conteúdo das latinhas geladas como se fosse o amor que não me deram. Virar copos era, antigamente, uma medida preventiva para que eu não pensasse no assunto. Hoje, nada me abala, nada me move e eu continuo virando copos numa tentativa desesperada e frustrada de que algo retorne.

Bebo o amor que não me deram e hoje já não choro mais. A pior coisa do fim de um relacionamento é quando você para de ouvir uma música ou banda de que realmente gostava pra não lembrar de alguém. Pois NÃO MAIS eu vos digo!  Me destruam, me matem, mas não mexam no meu playlist!

No momento em que te escrevo estas linhas, estou ouvindo Goldfrapp. Meu último amor destruiu meu coração e meus ouvidos.

Nunca mais passarei fome outra vez!  Disse Scarlett O’Hara. Mas a minha fome é de amor. Pois depois de muita luta eu descobri que eu me basto! E que se fodam as pessoas e suas exigências de camarim! Enquanto eu tiver minhas latinhas e minhas cartas eu serei feliz!

Para James, com amor.

02/02/2010

Querido James. [Resolvi te dar um nome de homem, se eu tivesse que transformar você em alguém te terno e gravata te transformaria em James pq é nome de Gentlemen e é isso que vc é]

Acho que se eu tivesse uma vida, ou coisas importantes para fazer não ficaria de madrugada pensando que condicionadores de ar não fazem sentido. Pra quê gerar frio e depois se cobrir em lençóis grossos para se proteger deste mesmo frio? Simplesmente não entendo.

Não entendo mais as pessoas e aqui está a prova:

Não entendo e me faz pensar que morrer de fome talvez seja bem mais produtivo do que me arriscar a conhecer pessoas. Bem mais!

Conhecer pessoas se tornou um esporte arriscado desde que a Internet surgiu deixando todo mundo muito burro, muito ligadão e muito rápido. Alguém me dê um ácido peloamordedeus! Precisamos pisar no freio.

E se as pessoas são feias elas serão inteligentes, porque pessoas feias tem que melhorar algum aspecto em suas vidas para serem aceitas. Eu sei porque sou feio e o pior! Sou burro! Chegaremos a isso.

Pessoas bonitas sempre tiveram suas bundinhas beijadas e seus paus chupados por todos ao seu redor. Portanto pessoas bonitas não precisaram de mais nada; a não ser sentar, relaxar e aproveitar o show.

Porém algumas pessoas bonitas acabam tentando ser inteligentes e ai é que dá problema. Problemas sérios para uma pessoa que tem seu pau chupado citando Nietzsche. Certa vez conheci um assim e pensei em príncipes encantados. Não.

A equação inteligente e bonito resulta sempre em filho da puta. Simples assim. E se você é inteligente e bonito quer e merece foder todo mundo e até eu compreendo isso.

Então, por alguma razão eu e você demos errado nesta equação. Desculpe James, mas tu sabe que a gente tem problemas.

Somos bonitos, jovens e inteligentes, mas acho que quando você junta “bicha” nesta equação as coisas vão para um outro lado. Eu só queria que esse calmante fizesse efeito e eu parasse de pensar bosta. Ai sim seria mais divertido.

A Courtney Love tem 1,80 sabia? Sabia. Tu que me disse. A gente devia ir ver se ela aceitava ser nossa amiga. Eu acho que ela ia adorar você. Vou roubar aquela revista da sala de espera da minha dentista. Tinha uma entrevista com ela na ELLE de anos atrás e ela falava coisas “mas ai eu fui ao tribunal, foi tudo muito triste e deprimente, mas eu estava impecável usando prada”. Essas coisas. Lembrei de você J.

Ela é mágica e você é a única coisa real neste mundo inteiro. Inteiro!

Hey hey! I’m gonna follow you! Oh baby fly away to Malibu!

James. Ontem fez uma semana que eu não durmo e só penso em bosta. Só bosta, tipo essa do ar condicionado.

Liguei pra minha mãe desesperado chorando e dizendo que estava ficando louco, acho que falei algo sobre não querer ser internado ou coisa assim. Ela me disse que tomasse um banho quente e um calmante.

Me sentei embaixo do chuveiro e chorei, chorei, chorei… Desculpe se o mundo está acabando e não devemos gastar água e nem energia; ou seja: nada de chuveiros quentes! Desculpe mundo, mas eu preciso chorar!

Sofrer pode ser bem bonito se você quiser que seja!

Tomei o calmante e dormi como um sapatinho Louboutin.

In your endless summer night I’ll be on the other side

When you’re beautiful and dying, all the words that you’ve denied
When the water is too deep you can close your eyes and really sleep tonight.

Beijos, da sua amada Alicia Silverstone.

O dia.

28/01/2010

“Um dos piores dias dos ultimos 22 anos” foi o que o New York Post disse sobre o dia de hoje. “Terrível; um verdadeiro pesadelo”, foi a opinião da revista Times americana ao que a Rolling Stone soube resumir em uma palavra: “ Desesperador”.

Já não sinto as pontas dos dedos nem o meu diminuto pênis, que ao contrário da crença popular, apesar das proporções já foi a alegria de muita gente e a minha inúmeras vezes. Adeus querido amigo, sentirei sua falta.

Tenho certeza de que estou sumindo de frente para trás, já sinto um comichão na ponta do nariz e nos lábios, ou seja, tudo indica que um dia só me sobrará a bunda e os cabelos que nela residem; ou seja, não poderei dizer adeus.

Perdoem-me.

E assim, as pessoas conversarão um dia sobre mim:

– Tu tem noticias do Dimitri?

– O Dimi? Tu não soube?

– Do quê?

– O Dimi acabou!

– Acabou o namoro?

– Não, não; acabou mesmo; esgotou-se.

– Morreu?

– Não, não morreu ainda. Continua vivo, somente acabou.

– Nossa que triste.

E assim serei eu:  Um eterna duvida, uma eterna busca, até que eu vire só um cabelinho de bunda e desapareça.

[ Neste momento, eu abro os braços e pétalas de rosas caem sobre mim. Estou em frente a penteadeira colocando um cílio falso numa tentativa desesperada de compreender eu mesmo e o mundo].

Pepsi eyes.

26/12/2009

Whisky

A tua boca pode falar do mundo inteiro. Um mundo inteiro que vem pela frente. A tua boca pode conter o mundo inteiro, um sorriso que aquece, um bocão que chama.

A tua alma é chama.

Teus olhos de pepsi borbulham vivos, lindos, dá vontade de entrar neles e sentir as borbulhas que fazem a gente lacrimejar. Não me pergunte o que é, mas assim são os teus olhos.

You could be a star playing on my Itunes.

You could be a star

Teu bocão.

Teus olhos de pepsi.

You remind me of a Young Anthony Kiedis.

Don’t you dare getting old.

Tu tem alma de velho. Igual a mim. É única coisa que temos em comum. Meus olhos morreram no carnaval do ano passado e minha boca talvez precise de colágeno.
Eu já tive olhos tão vivos…

Don’t you dare getting old.

Hoje eu tenho ombros e só. Minha alma ficou pra trás na minha ultima viagem. Graças a deus eu tenho ombros.

Seja meu. Seja o meu whisky velho que eu acabo de roubar. Seja o ultimo cigarro que eu não quero dividir. Você pode conter o meu mundo, os meus ombros e os meus olhos que já foram tão vivos quanto os seus.

Nunca fique velho. Ninguém vai ficar.

Você me lembra um jovem eu.

E o pior é ainda ser jovem.

Don’t you dare.

Fold it

15/12/2009

Quando entregaram o flyer, era só mais um flyer dos tantos que passam pelas mãos da gente no fim do ano. Uns falam de promoções em loja de bijuterias, outros falam sobre as festas mais animadas do fim do ano; geralmente com algum DJ australiano que a gente finge conhecer para parecer entendedor do assunto. Ela era daquelas que nunca percebia que o Dj havia mudado e geralmente se irritava com uma das batidas da musica, ela isolava apenas uma parte das batidas, ficava puta e ia embora.

Por alguma razão, alguém, naquele dia resolveu passar adiante um flyer sobre um cursinho pré-vestibular, desses que tem porcentagens irreais de aprovação e fotos de alguns alunos sorrindo de braços cruzados. Nunca entendi porque os braços cruzados e o sorriso.

Ela amassou e jogou na bolsa.

Ela foi viver a vidinha de sempre, e no outro dia trocou de bolsa. Tinha um encontro, uma reunião e uma entrevista de emprego; para cada ocasião uma bolsa diferente.

Algumas semanas depois ela precisou da bolsa para ir ao shopping para comprar uma nova bolsa para o ano novo. Abriu-a e resolveu fazer uma limpeza. Muitos papéis de doces, embalagens de remédio, cigarros que justificavam os remédios, e no meio de todas essas coisas um papelzinho amassado.

Desamassou, como sempre fazia; via o que era, se decepcionava com o conteúdo, amassava de novo e acendia um cigarro.

Desta vez foi diferente.

Ao abrir o papel ela se deparou com o amor.

Um amor de braços cruzados e um sorriso que ia de um lado a outro do rosto. Um amor de olhinhos apertados, cabelinhos bagunçados e uma inclinação para trás que dizia “eu estou satisfeito”. Acho que é por isso que eles sempre estão com os braços cruzados e um sorriso no rosto: Satisfação!

Ela desamassou o papelzinho freneticamente e olhou e olhou e olhou de novo. Não parecia ser real. Não parecia ser algo possível. Onde ela estava e o que ela estava fazendo no dia que aqueles olhos se uniram aquelas sobrancelhas, com aquele nariz e aquele sorriso enorme? Era lindo. Era vivo. Estava satisfeito com o curso superior que havia escolhido e era a imagem do amor. A imagem retocada e impressa do amor. O amor foi impresso em uma gráfica rápida barata.

O amor esteve em sua bolsa por todo esse tempo.

O cigarro já ia pela metade enquanto ela olhava incrédula. Estava apaixonada.

Nos dias que se seguiram, ela guardou a foto do amor em um cantinho de sua bolsa. Estava se sentindo ridícula com a cabeça enconstada no vidro do ônibus olhando para a foto e pensando nele. Quem seria ele? O que ele fazia da vida? Será que estudava mesmo neste cursinho? Será que estava satisfeito?

Piscou os olhos três vezes e sentiu vergonha. De fato ruborizou. Olhou para a janela e pensou incrédula “devo estar ficando louca”. Pensou novamente a mesma coisa, quando mais adiante viu o amor novamente, desta vem em um outdoor. O amor era gigante e ainda mais bonito a luz do dia.

Louca! Ela estava louca. Um mês se passou e agora o amor estava colado em sua agenda. Ela fez uma moldura com caneta bic; tinha corações e curvinhas.

Ela escreveu embaixo dele “o amor da minha vida”. Inúmeras vezes pensou em se matricular no cursinho pré vestibular e descobrir se ele de fato estudava lá. Havia uma possibilidade. Ela tinha 32 anos e já era pós graduada da área de comunicação. O amor a estava consumindo.

Depois de um mês e duas semanas uma de suas amigas no trabalho comentou que:

1-   Ela estava um pouco mais gorda

2 – Suas unhas estavam uma bagunça

3 – Ela parecia cansada

e por fim:

4 – Ela devia arrumar um namorado.

Ao se olhar no espelho ela constatou as quatro afirmações da amiga. Era tudo verdade.  Abriu a agenda e deu uma olhada no amor. Sentiu ódio. “você está acabando com a minha vida”, pensou. Fechou a agenda com raiva e abriu a agenda do celular. Era hora de entrar em ação.

Marcou um encontro com um caso antigo que ficara mal resolvido. Bernardo era um cara bonito, gente fina e interessante. Ela simplesmente não conseguia lembrar porque as coisas acabaram tão rápido entre eles. Ligou como quem não quer nada e o chamou para comer sushi disse que deu “saudades”.

Mentira.

O papo como sempre foi legal. Sushis e sakês e os dois estavam soltinhos e flertando um com o outro. As coisas estavam indo bem.

Seja lá quem foi que disse que a melhor coisa para esquecer um amor é um novo amor foi uma pessoa bem estúpida. Amor não é uma coisa que se compra ou que se acha. Amor é uma merda que acontece. Um acidente de trem, uma queda de avião. No fundo ela sabia que estava se esforçando muito.

Mais tarde naquela noite, enquanto Bernardo chupava sua buceta, ela pensava nele. Ela estava triste. Olhava para o teto tentando entender.  Depois que Bernardo colocou a camisinha ela se virou de costas “isso sua safada” ele disse.

Ela fechou os olhos e se concentrou em uma imagem.

Envergonhada. Ela basicamente se masturbou, mas ao invés dos dedos ela usou um bom homem. Coitado. Era o fundo do poço e todo mundo sabe que nessas horas ou você fica caído por lá, ou se levanta e faz um esforço para subir de novo.

Ela se levantou cedo e foi em um cursinho pré-vestibular.

Ela riu em algum momento da aula de história quando as pessoas começaram a fazer notas sobre Getulio Vargas. Ela já tinha passado por tudo isso.

E então chegou a hora da verdade: A hora do intervalo.

Ela estava atenta e de óculos escuros. Perambulou por todo o prédio em busca dele. Ele tinha que estar em algum lugar. Neste momento ela não conseguiu acreditar no que estava fazendo e muito menos que chegou a pagar a matricula e o material para o cursinho. Cynthiah a moça que a atendeu perguntou qual o curso que ela queria fazer e ela disse “matemática”. Pensou rápido.

Ela não sabia nada de Matemática.

E então, ela o viu.

O amor era um pouco mais baixo e um pouco mais magro do que ela imaginara, mas o sorriso estava lá. Lindo. De um lado a outro da cara.

O amor estava cercado de amigos e de meninas bonitas.

O amor estava comendo uma coxinha com muito ketchup.

Quando o intervalo acabou e ele saiu batendo nas mãos dos amigos e dizendo “falow véi” algo acalmou em seu coração. Parecia que ela respirava pela primeira vez em dois meses.

Uma das amigas do amor se levantou e ele, prontamente passou a mão em sua bunda, a menina gritou e ele e seus amigos riram alto e se cumprimentaram felizes.

Ela foi na recepção, cancelou a matricula, devolveu o material. Ao ser indagada por Cynthiah sobre os reais motivos da sua desistência ela disse: “O amor é só uma merda que acontece”.

No outro dia ligou pra Bernardo.

Fashion.

02/12/2009

Concentração.

Ela saiu do banheiro cambaleando, com certeza não pelos saltos altíssimos que usava; ela já era bastante experiente nisso, tenho certeza. Acho que tem algo a ver com aquela coceira súbita que ela tinha no nariz.

Ela voltou para a mesinha de Ladys Gagas estilistas absurdinhos, onde eles lhe davam atenção, amor e dicas de moda. Magra, leve e calma. Antigamente ela era assim, hoje tem um ar pesado, sem sono e sem futuro.

Um dia teria que usar roupas mais largas, o amor que não a davam havia se transformado em inúmeros bon-bons durante a semana e incontáveis copos de cerveja no fim de semana. No corpo esguio de morena alta, já se notavam algumas protuberâncias consideradas o fim da picada pela industria da moda, pela mídia, pela minha tia Renata e pela equipe responsável pelo casting de malhação.

A dormência do sono começou a se manifestar.

Ela ainda não estava pronta para desistir de homens gays. Ainda não. É como quando a gente ouve o despertador e pensa “só mais um pouquinho”. A gente sabe que vai fuder tudo se continuar dormindo, mas aperta o botão da soneca umas vinte vezes.

Poucas vezes eles se beijaram. Ele. Ele era o soneca dela. Aquele prazerzinho de dez em dez minutos que não parecem nunca que vão dar em merda, mas dão. Uma grande merda.

Ela não estava pronta para encarar ainda. Ele beijava outro cara no banheiro. O que os olhos borrados dela não viam, o coração vazio, também dela, não sentia.

A cabeça pendeu para um lado, as mãos por sobre a mesa estavam meio desajeitadas. Uma das mão segurava a cabeça e os cabelos revoltos de tanto dançar. Com a maquiagem borrada,  quando pareceu que ela ia fechar os olhos e desmaiar, alguém tirou uma foto.

Uma capa de Vogue de qualquer país que tenha Vogue. O que me leva a pensar que todo país deve ter Vogue; um país sem Vogue é uma nação sem asas.

Ela era uma mulher sem alma.

Alguém uma vez a disse: “Tu cuida tanto assim do exterior porque por dentro tu tá uma merda”. Ela sabia disso. E nos sábados ela apertava o botão da sonequinha para não ter que lembrar de nada por mais uns dez minutinhos antes de tudo virar uma coleção ultrapassada outra vez.