Concentração.
Ela saiu do banheiro cambaleando, com certeza não pelos saltos altíssimos que usava; ela já era bastante experiente nisso, tenho certeza. Acho que tem algo a ver com aquela coceira súbita que ela tinha no nariz.
Ela voltou para a mesinha de Ladys Gagas estilistas absurdinhos, onde eles lhe davam atenção, amor e dicas de moda. Magra, leve e calma. Antigamente ela era assim, hoje tem um ar pesado, sem sono e sem futuro.
Um dia teria que usar roupas mais largas, o amor que não a davam havia se transformado em inúmeros bon-bons durante a semana e incontáveis copos de cerveja no fim de semana. No corpo esguio de morena alta, já se notavam algumas protuberâncias consideradas o fim da picada pela industria da moda, pela mídia, pela minha tia Renata e pela equipe responsável pelo casting de malhação.
A dormência do sono começou a se manifestar.
Ela ainda não estava pronta para desistir de homens gays. Ainda não. É como quando a gente ouve o despertador e pensa “só mais um pouquinho”. A gente sabe que vai fuder tudo se continuar dormindo, mas aperta o botão da soneca umas vinte vezes.
Poucas vezes eles se beijaram. Ele. Ele era o soneca dela. Aquele prazerzinho de dez em dez minutos que não parecem nunca que vão dar em merda, mas dão. Uma grande merda.
Ela não estava pronta para encarar ainda. Ele beijava outro cara no banheiro. O que os olhos borrados dela não viam, o coração vazio, também dela, não sentia.
A cabeça pendeu para um lado, as mãos por sobre a mesa estavam meio desajeitadas. Uma das mão segurava a cabeça e os cabelos revoltos de tanto dançar. Com a maquiagem borrada, quando pareceu que ela ia fechar os olhos e desmaiar, alguém tirou uma foto.
Uma capa de Vogue de qualquer país que tenha Vogue. O que me leva a pensar que todo país deve ter Vogue; um país sem Vogue é uma nação sem asas.
Ela era uma mulher sem alma.
Alguém uma vez a disse: “Tu cuida tanto assim do exterior porque por dentro tu tá uma merda”. Ela sabia disso. E nos sábados ela apertava o botão da sonequinha para não ter que lembrar de nada por mais uns dez minutinhos antes de tudo virar uma coleção ultrapassada outra vez.
03/12/2009 ás 7:42 pm |
Ela certamente é um pouquinho eu. E um pouquinho você.
04/12/2009 ás 6:16 pm |
começou aqui em alto estilo … parabéns … adorando esta sua nova vertente …
05/12/2009 ás 8:31 pm |
huuuum, me gusta muy. =D
bom começo!
10/12/2009 ás 12:03 pm |
“Tu cuida tanto assim do exterior porque por dentro tu tá uma merda”…
E a gnt chega à conclusão: todo mundo tá fodido.
12/12/2009 ás 4:53 am |
Realmente se cuidam tanto do exterior é porque por dentro é uma bagunça total. Agora comigo já é o contrário: Cuido tanto do meu interior que o exterior está uma merda… =/
12/12/2009 ás 6:54 pm |
Fudeu, pq eu ja sou seu fã.
Adorei o blog novo.
xx